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Como Devemos Cultuar a Deus?

Jon. 4:23, 2 Tim. 3:17 PT102

Flip Wilson, um famoso comediante norte-americano, tinha em seu repertório um personagem chamado Reverendo Leroy, que pastoreava a “Igreja do Que Está Acontecendo Agora”. No início da década de 1970, o Reverendo Leroy e sua igreja eram uma paródia ultrajante. Mas, na verdade, a comunidade evangélica de nossos dias está enxameada com Reverendos Leroys, e muitas igrejas poderiam convenientemente receber o nome de “Igreja do Que Está Acontecendo Agora”.

Não há limites no que se refere a quão longe algumas igrejas avançarão no propósito de se tornarem “relevantes” e “modernas” em seus cultos. E parece que não existe mais nada excessivamente profano ou abusivo para ser introduzido no “culto”.

A revista Los Angeles Times recentemente falou sobre uma Igreja no sul da Califórnia que distribuiu panfletos anunciando seus cultos como “Horas Agradáveis da Música Country de Deus”. Os panfletos audaciosamente prometiam “dança semelhante à quadrilha logo depois do culto”. De acordo com o artigo da revista, “o pastor também dançou, calçado de botas de couro e vestido com jeans”. O pastor justifica esse movimento com a revitalização de sua igreja. O artigo da revista descreve a manhã de domingo na igreja:

“Os membros ouvem os sermões, cujos temas incluem ‘A Pickup Ford do Pastor e Sexo Cristão’ (classificado com R, que significa ‘relevância, respeito e relacionamento’, disse o pastor, ‘e mais engraçado do que parece’). Após o culto, os membros dançam com músicas de uma banda chamada Os Anjos do Cabaré (e o que mais poderia ser?). A freqüência à igreja está aumentando rapidamente...”

Você pode imaginar que isto é apenas uma aberração de uma igreja desconhecida e excêntrica. Infelizmente, este não é o caso. A teoria contemporânea do crescimento de igreja tem aberto uma porta ampla para tais absurdos. Às vezes, parece que P. T. Barnum (1810-1891) é o principal modelo para muitos que nesses dias participam do movimento de crescimento de igreja. Na verdade, o convite abaixo para um culto dominical vespertino apareceu no boletim de uma das maiores e mais conhecidas igrejas que integram o “Cinturão da Bíblia” nos Estados Unidos:

Circo – Vejam Barnum e Bailey, quando o mágico do grande e famoso circo vier à Comunhão do Divertimento! Palhaços! Acrobatas! Animais! Pipoca! Que grande noite!”

Essa mesma igreja, em certa época, teve seu conselho de pastores introduzido num ringue de luta corporal, durante o culto dominical, indo mesmo ao ponto de ter um lutador profissional treinando os pastores a jogarem um ao outro no ringue, puxarem os cabelos e derrubarem uns aos outros, sem realmente machucarem-se. Estes não são incidentes extraordinários. Muitas igrejas estão seguindo métodos semelhantes, utilizando todos os meios disponíveis para apimentar seus cultos.

É evidente que o culto dominical está passando por uma revolução sem paralelo em toda a história da Igreja.


O Verdadeiro Culto

Anos atrás, enquanto eu pregava sobre o Evangelho de João, fui tocado pelo profundo significado da verdadeira adoração – “Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (Jo 4.23). Percebi, tão claramente como nunca havia percebido antes, as implicações da afirmativa – “adorarão... em espírito e em verdade”. Essa frase sugere, primeiramente, que a adoração verdadeira envolve tanto o intelecto quanto as emoções. Salienta a verdade de que a adoração tem de ser focalizada em Deus, não no adorador. O contexto também demonstra que Jesus estava dizendo que a adoração verdadeira é mais uma questão de essência do que de forma. Ele estava ensinando que a adoração envolve o que fazemos em nossa vida, não apenas o que fazemos no lugar formal de adoração.

Interrompi naquele ponto as mensagens sobre João 4 e continuei o assunto com um estudo tópico sobre adoração. A editora Moody Press pediu que colocasse essas mensagens em um livro, que foi publicado sob o nome de The Ultimate Priority (A Prioridade Crucial). Esse estudo sobre adoração afetou-me mais profundamente do que qualquer outra série de sermões que já havia preparado. Mudou para sempre minha opinião sobre o que significa adorar a Deus.

Aquela série de estudos também marcou o início de uma nova etapa para nossa igreja. Nossa adoração coletiva adquiriu nova profundidade e significado. As pessoas começaram a ficar conscientes de que cada aspecto do culto da igreja – música, oração, pregação e, mesmo, as ofertas – é adoração oferecida a Deus. Começaram a ver as superficialidades como uma ofensa a um Deus santo e a considerar o culto como uma atividade em que deveriam ser participantes e não espectadores isolados. Se o culto é algo que oferecemos a Deus – e não um show elaborado para beneficiar a congregação – então cada aspecto do culto tem de ser agradável a Deus e estar em harmonia com sua Palavra. Portanto, o resultado de nossa nova ênfase sobre o culto foi o aprofundamento de nosso compromisso com a centralidade das Escrituras.

Sola Scriptura

Alguns anos depois daquela série de estudos sobre adoração, preguei sobre o Salmo 19. Minha reação foi a de alguém que estava contemplando pela primeira vez o poder daquilo que o salmista estava afirmando sobre a suficiência das Escrituras.

A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma.

O testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices.

Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração.

O mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos.

O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre.

Os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos.

São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado;

são mais doces do que o mel e o destilar dos favos.


O argumento central da mensagem deste salmo é: a Escritura é completamente suficiente para satisfazer todas as necessidades da alma humana. Sugere que toda a verdade espiritual e essencial está contida na Palavra de Deus. Pense nisso: a verdade das Escrituras pode restaurar a alma danificada pelo pecado, outorgar sabedoria espiritual, confortar o coração abatido e trazer iluminação espiritual. Em outras palavras, a Bíblia resume tudo que precisamos saber a respeito da verdade e da justiça; ou, como o apóstolo Paulo escreveu, a Bíblia é capaz de nos habilitar para toda boa obra (2 Tm 3.17).

Esta série de estudos sobre o Salmo 19 marcou outro movimento na vida de nossa igreja, colocando-nos face a face com um dos princípios dos reformadores – Sola Scriptura. Em uma época quando muitos evangélicos parecem estar se voltando em massa para a esperteza mundana nas áreas de psicologia, negócios, política, relacionamentos e entretenimento, as Escrituras nos são indicadas como a única fonte que podemos recorrer para encontrar a infalível verdade espiritual. A série de estudos teve um impacto sobre cada aspecto da vida de nossa igreja.

A Suficiência das Escrituras: Um Princípio Para Regular o Culto

Como podemos aplicar a suficiência das Escrituras ao culto da igreja? Os reformadores responderam essa pergunta aplicando Sola Scriptura à adoração, estabelecendo o que eles chamaram de Princípio Regulador. João Calvino foi o primeiro a articular de maneira sucinta esse princípio:

“Não podemos adotar qualquer artifício [em nosso culto] que pareça satisfazer a nós mesmos, e sim levar em conta as exortações dAquele que tem o direito de prescrevê-las. Portanto, se desejamos que Ele aprove nosso culto, esta regra, que Ele mesmo enfatiza com muita rigidez, tem de ser observada com zelo... Deus reprova todos os tipos de cultos não sancionados expressamente por sua palavra”.

Calvino sustentava este princípio utilizando diversas passagens bíblicas, incluindo 1 Samuel 15.22 – “Obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” – e Mateus 15.9: “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”.

John Hooper, um pastor inglês, contemporâneo de Calvino, afirmou assim este mesmo princípio: “Na igreja não deve ser utilizado nada que não tenha a expressa aprovação das Escrituras, para apoiá-lo, ou que seja algo indiferente em si mesmo, ou seja, que não traga qualquer proveito quando utilizado e nenhum prejuízo quando omitido”.

William Cunningham, um historiador da Igreja, que viveu no século XIX, definiu nesses termos o princípio regulador: “É insustentável e ilícito introduzir no governo e no culto da igreja qualquer coisa que não tem a sanção positiva das Escrituras”.

Os reformadores e puritanos aplicavam o princípio regulador contra os ritos formais, as vestes sacerdotais, a hierarquia eclesiástica e outros resquícios do culto da Igreja Católica. O princípio regulador era freqüentemente citado pelos reformadores ingleses que se opunham aos elementos da Igreja Alta no anglicanismo, os quais haviam sido emprestados da tradição católica romana.Foi o comprometimento de muitos puritanos com o princípio regulador que levou centenas de pastores puritanos a serem excluídos, por decreto, dos púlpitos da Igreja da Inglaterra em 1662.

Além disso, a simplicidade da forma de culto das igrejas presbiterianas, batistas, congregacionais e de outras tradições evangélicas é o resultado da aplicação do princípio regulador.

Os evangélicos de nossos dias fariam bem se recuperassem a mesma confiança que seus antecessores espirituais tinham em relação às Escrituras. Uma boa quantidade de tendências prejudiciais que estão ganhando importância nesses dias revelam a decrescente confiança dos evangélicos na suficiência das Escrituras. Por um lado, existe, como já observamos, uma atmosfera de circo em algumas igrejas que empregam métodos pragmáticos que trivializam aquilo que é santo, para impulsionar a freqüência de pessoas na igreja. Por outro lado, um crescente número de evangélicos está abandonando as formas simples de adoração, em favor do formalismo da Igreja Alta. Alguns estão deixando completamente o evangelicalismo e unido-se à Igreja Ortodoxa e ao catolicismo romano.

Enquanto isso, algumas igrejas simplesmente abandonaram toda a objetividade, optando por um estilo de culto turbulento, emocional e destituído de qualquer sentido racional. Talvez um dos mais comentados movimentos que está varrendo o cristianismo no presente é o fenômeno conhecido como “Bênção de Toronto”, onde toda a congregação ri incontrolavelmente, sem qualquer motivo racional, late como cachorros, ruge como leões, cacareja como galinhas, pula, corre e convulsiona. Eles vêem isso como uma evidência de que o poder de Deus lhes foi transmitido.

Nenhuma dessas tendências está avançando por motivos bíblicos consistentes. Pelo contrário, seus defensores citam argumentos pragmáticos ou procuram o apoio de interpretações erradas de textos das Escrituras, do revisionismo da história ou tradições antigas. Esta é exatamente a mentalidade contra a qual os reformadores lutavam.

Um novo entendimento de Sola Scriptura – a suficiência das Escrituras – tem de nos estimular a continuar reformando nossas igrejas, a regular nossos cultos de acordo com as normas bíblicas e a desejar intensamente ser pessoas que adoram a Deus em espírito e em verdade.

Aplicando Sola Scriptura ao Culto

A questão que surge a seguir é sobre como o princípio Sola Scriptura pode ser usado para regular o culto. Alguém pode indicar o fato de que Charles Spurgeon utilizava o princípio regulador para excluir o uso de qualquer instrumento musical no culto. Spurgeon recusou permitir a utilização de um órgão no Tabernáculo Metropolitano, porque acre- ditava que não havia base bíblica para música instrumental no culto cristão. Na verdade, ainda existem crentes que, pelo mesmo motivo, se opõem a música instrumental.

É óbvio que nem todos os que afirmam a ortodoxia do princípio regulador necessariamente concordam em todos os detalhes sobre como ele deveria ser aplicado. Alguns poderiam salientar tais diferenças nas questões práticas e sugerir que todo o princípio regulador é, por isso mesmo, insustentável. William Cunningham observou que críticas contra o princípio regulador freqüentemente procuram desacreditá-lo recorrendo à tática do reduzi-lo ao absurdo.

Aqueles que não apreciam o princípio regulador, por qualquer motivo, geralmente procuram nos co-locar em dificuldades, pondo sobre ele uma rigorosa conotação, dando-lhe, deste modo, uma aparência de algo absurdo. Mas o princípio regulador tem de ser interpretado e ex- plicado com o exercício do bom senso. Dificuldades e diferenças de opiniões podem surgir a respeito dos detalhes, mesmo quando o discernimento correto e o bom senso influenciam a interpretação e aplicação do princípio. Mas isto não oferece qualquer fundamento para negar ou duvidar das verdades ou da ortodoxia do próprio princípio regulador.9

Cunningham reconheceu que o princípio regulador com freqüência é empregado para argumentar contra coisas que podem ser reputadas como relativamente sem importância, tais como ritos, cerimônias, vestimentas, órgãos, ajoelhar-se, prostrar-se e outros recursos exteriores da religião formal. Por causa disso, Cunningham afirmou: “Algumas pessoas parecem imaginar que o princípio regulador se preocupa com a insignificância intrínseca das coisas”.10 Portanto, muitos concluem: os que advogam o princípio regulador fazem-no porque realmente gostam de contender por coisas insignificantes.

Com certeza, ninguém se deleitaria em disputas por questões irrelevantes. É verdade que o princípio regulador ocasionalmente tem sido utilizado daquela maneira. Uma obsessão por aplicar qualquer princípio aos menores detalhes pode facilmente se tornar uma forma destrutiva de legalismo.11

Mas o princípio Sola Scriptura, aplicado ao culto, é sempre digno de ser defendido com ferocidade. O princípio em si mesmo não é trivial. Além disso, a falha de apegar-se à prescrição bíblica no que se refere ao culto é exatamente aquilo que mergulhou a igreja nas trevas e na idolatria da Idade Média.

Não tenho interesse em suscitar um debate sobre instrumentos musicais, vestimentas pastorais, decoração do templo ou outros assuntos. Se existem aqueles que utilizam o princípio regulador como um trampolim para tais debates, excluam-me de entre eles. As questões que inflamam minha preocupação relacionada ao culto contemporâneo são mais profundas do que tais assuntos. Referem-se ao próprio âmago do que significa adorar a Deus em espírito e em verdade.

Minha preocupação é esta: o fato de a igreja moderna ter abandonado o Sola Scriptura abriu as portas para diversos abusos grotescos e imagináveis, incluindo cultos com banda de cabaré, a atmosfera de espetáculos carnavalescos e exibições de luta livre. Mesmo a mais liberal e ampla aplicação do princípio regulador do culto teria um efeito corretivo em tais abusos.

Pense, por um momento, no que aconteceria à adoração coletiva, se a igreja contemporânea levasse a sério o Sola Scriptura. Quatro diretrizes bíblicas para o culto imediatamente viriam à nossa mente. Essas diretrizes caíram em um trágico estado de negligência. Recuperá-las com certeza produziria uma nova reforma no culto da igreja moderna.

Pregar a Palavra. Na adoração coletiva, a pregação da Palavra deve ter a primazia. Todas as instruções do Novo Testamento aos pastores centralizam-se nessas palavras de Paulo a Timóteo: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (2 Tm 4.2). Em outra carta, o apóstolo resumiu seu conselho ao jovem pastor: “Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino” (1 Tm 4.13). Evidentemente, o ministério de pregar a Palavra era o âmago das responsabilidades pastorais de Timóteo.

Na igreja do Novo Testamento, as atividades da comunidade de crentes eram completamente centralizadas “na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). A pregação da Palavra era o centro de todo o culto. Em certa ocasião, Paulo pregou a um grupo de crentes até depois da meia-noite (At 20.7-8). O ministério da Palavra tinha uma parte tão crucial na vida da igreja, que, antes de um membro ser qualificado para servir como presbítero, teria de ser provado como alguém habilidoso em ensinar a Palavra (cf. 1 Tm 3.2; 2 Tm 2.24; Tt 1.9).

O apóstolo Paulo caracterizou assim a sua própria chamada: “Me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus"

(Cl 1.25 – ênfase acrescentada). Você pode estar certo de que a pregação era um elemento predominante em todo culto do qual Paulo participava.

Muitas pessoas vêem a pregação e a adoração como dois aspectos distintos do culto da igreja, como se a pregação não tivesse qualquer ligação com a adoração e vice-versa. Mas este é um conceito errôneo. O ministério da Palavra é a plataforma sobre a qual a verdadeira adoração é edificada. Em seu livro Between Two Worlds (Entre Dois Mundos), John Stott afirmou muito bem: “A Palavra e a Adoração pertencem indissoluvelmente uma à outra. Toda a adoração é uma resposta inteligente e amável à revelação de Deus, porque é a adoração de seu nome. Portanto, a adoração aceitável é impossível sem a pregação. Pregar é tornar conhecido o nome de Deus, e adorar é louvar o nome do Senhor sobre o qual fomos informados. Ao invés de ser uma intrusão alienígena à adoração, o ler e o pregar a Palavra são realmente indispensáveis à adoração. As duas não podem ser divorciadas”.

Pregar é um aspecto insubstituível de toda a adoração coletiva. Na verdade, todo o culto da igreja gira em torno do ministério da Palavra. Todas as outras coisas são preparatórias ou uma reação à mensagem das Escrituras.

Quando o teatro, a música, a comédia e outras atividades têm a permissão de usurpar o lugar da pregação da Palavra, a verdadeira adoração inevitavelmente é prejudicada. E, quando a pregação é subjugada à pompa e à circunstância, ela também obstrui a adoração genuína. Um culto de adoração sem o ministério da Palavra tem um valor questionável. Além disso, a “igreja” onde a Palavra de Deus não é regularmente e fielmente pregada não é uma verdadeira igreja.

Edificar o Rebanho. As Escrituras nos dizem que o propósito dos dons espirituais é a edificação de toda a igreja (Ef 4.12; cf. 1 Co 14.12). Por esse motivo, todo o ministério da igreja tem de produzir edificação, fazendo o rebanho crescer espiritualmente e não apenas estimulando emoções.

Acima de tudo, o ministério da igreja deve ter como alvo o promover a adoração verdadeira. Para alcançar esse objetivo, ele tem de ser edificante. Isso está implícito na ex- pressão “que... o adorem em espírito e em verdade”. Como já observamos, a adoração deve envolver o intelecto e as emoções. A adoração deve ser emocionante, profundamente sentida e tocante. Mas o importante não é estimular as emoções, enquanto desligamos nosso intelecto. A adoração verdadeira mescla a mente e o coração em uma resposta de adoração pura, fundamentada na verdade revelada da Palavra de Deus.

A música pode, às vezes, nos comover pela agradável beleza da melodia, mas este sentimento não é adoração. Por si mesma, a música, sem a verdade contida nos versos, não é um recurso legítimo para a adoração autêntica. De maneira semelhante, uma história comovente pode ser tocante ou inspirativa, mas, se a mensagem que ela transmite não estiver no contexto da verdade bíblica, quaisquer sentimentos que ela desperte não têm qualquer utilidade em fomentar a verdadeira adoração. Emoções fortes despertadas durante o culto não constituem necessariamente uma evidência de que houve verdadeira adoração.

A adoração genuína é uma resposta à verdade divina. É emotiva porque surge de nosso amor a Deus. No entanto, a adoração verdadeira também deve ser fruto de um correto entendimento de sua lei, sua justiça, sua misericórdia e seu ser. A genuína adoração reconhece Deus conforme Ele se revela nas Escrituras. Por exemplo, através das Escrituras, sabemos que Ele é a única, perfeitamente santa, onipotente, onisciente e onipresente fonte da qual flui toda bondade, misericórdia, verdade, sabedoria, poder e salvação. Adorar significa atribuir glória a Deus por causa dessas verdades; significa louvá-Lo por aquilo que Ele é, aquilo que tem feito e aquilo que tem prometido. Por conseguinte, adoração tem de ser uma resposta à verdade que Ele revelou a respeito de si mesmo. Tal adoração não pode resultar de um vazio. É motivada e vitalizada pela verdade objetiva da Palavra de Deus.

Cerimônias mortas e entretenimento também são incapazes de provocar essa adoração, não importa quão emocionantes tais coisas sejam. Elas não edificam. No máximo, elas podem despertar emoções. Mas isso não é adoração.

Honrar o Senhor. Hebreus 12.28 afirma: “Retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor”. Esse versículo nos fala sobre a atitude com que devemos adorar. A palavra grega traduzida por “sirvamos” é latreuo, que literalmente significa “cultuar”. O argumento principal é que a adoração tem de ser realizada com reverência, de uma maneira que honra a Deus.

Na adoração coletiva, não existe lugar para a atmosfera frívola, superficial e leviana que freqüentemente prevalece nas igrejas modernas que procuram ser relevantes. Substituir o culto de adoração por um espetáculo distancia-se tanto quanto possível da atitude de adoração bíblica “com reverência e temor”.

“Reverência e temor” referem-se ao solene sentimento de honra que resulta de percebermos a majestade de Deus. Exige uma percepção

da santidade de Deus e de nossa própria pecaminosidade. Tudo na adoração coletiva da igreja deve ter como alvo o fomentar esse tipo de atmosfera.

Por que igrejas substituem a adoração por entretenimento e comédia nos cultos no Dia do Senhor? Muitas que o têm feito declaram que têm o objetivo de alcançar os não-crentes; querem criar um ambiente “amigável”, que será mais atraente aos incrédulos. O objetivo concreto deles é “relevância”, ao invés de “reverência”. Seus cultos são idealizados para alcançar os incrédulos com o evangelho, e não para os crentes se reunirem a fim de adorarem a Deus e serem edificados. Muitas dessas igrejas não atribuem qualquer ênfase às ordenanças do Novo Testamento. A Ceia do Senhor, quando observada nessas igrejas, é transformada em um culto insignificante, no meio da semana. O batismo se torna real- mente opcional e normalmente são realizados em qualquer outra ocasião, exceto nos cultos dominicais.

O que está errado nisso? Existe problema em utilizar os cultos do Dia do Senhor como reuniões evangelísticas? Há uma razão bíblica que justifica o domingo como dia em que os crentes se reúnem para adoração?

As Escrituras e a história nos fornecem inúmeras razões para separarmos o primeiro dia da semana para adoração e comunhão entre os crentes. Infelizmente, uma consideração mais detalhada desses argumentos está fora do escopo desse breve artigo. Mas uma simples aplicação do princípio regulador oferece bastante orientação.

Por exemplo, aprendemos das Escrituras que o primeiro dia da semana era o dia em que a igreja apostólica se reunia para celebrar a Ceia do Senhor: “No primeiro dia da se- mana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os” (At 20.7). O após- tolo instruiu os crentes de Corinto a fazerem suas ofertas, sistematicamente, no primeiro dia da semana, deixando claramente implícito que este era o dia em que eles deveriam se reunir para adoração. A história nos revela que a igreja dos primeiros séculos se referia ao primeiro dia da semana como o Dia do Senhor, uma expressão que encontramos em Apocalipse 1.10.

Além disso, a Bíblia sugere que as reuniões regulares da igreja primitiva não visavam a propósitos evangelísticos, e sim, primariamente, ao encorajamento mútuo e à adoração na comunidade de crentes. Esta é a razão por que o escritor de Hebreus fez o seguinte apelo: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (Hb 10.24-25 – ênfase acrescentada).

Com certeza, havia ocasiões em que os incrédulos vinham às reuniões dos crentes. As reuniões da igreja do primeiro século eram essencialmente públicas, assim como muitas o são hoje. Mas o próprio culto tinha como objetivo a adoração a Deus e a comunhão entre os crentes. O evangelismo acontecia no contexto da vida diária, à medida que os crentes propagavam o evangelho. Eles se reuniam para adoração e comunhão e se separavam para evangelizar. Quando uma igreja torna todas as suas reuniões evangelísticas, os crentes perdem a oportunidade de crescer, de serem edificados e de adorar.

Também não existe qualquer fundamento bíblico para adaptarmos os cultos semanais de acordo com a preferência dos incrédulos. Na realidade, essa prática parece contrária ao espírito de tudo que as Escrituras dizem a respeito da comunidade de crentes.

Quando a igreja se reúne, no Dia do Senhor, essa não é uma ocasião para entreter o incrédulo, divertir os irmãos ou satisfazer as “necessidades sentidas” de nossos ouvintes. Pelo contrário, é uma ocasião para, como igreja, nos humilharmos diante de nosso Deus e honrá-Lo com nossa adoração.

Não Confiar na Carne. Em Filipenses 3.3, o apóstolo Paulo descreve nesses termos a adoração cristã: “Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne” (ênfase acrescentada).

Mais adiante nessa carta, Paulo testemunhou como ele chegou a perceber que seu legalismo farisaico, no qual ele vivia antes de tornar-se crente, não tinha qualquer valor. Ele mostrou como anteriormente tinha obsessão por questões exteriores e carnais, tais como circuncisão, descendência e obediência à lei, ao invés de se interessar pelas questões mais importantes a respeito do estado de sua alma. A conversão de Paulo na estrada de Damasco mudou tudo isso. Seus olhos foram abertos à gloriosa verdade da justificação pela fé. Ele compreendeu que a única maneira de estar e ser aceito na presença de Deus era ser vestido com a justiça de Cristo. Paulo aprendeu que a simples obediência a ritos religiosos, tais como a circuncisão e as cerimônias prescritas na lei, não tinha qualquer valor espiritual. De fato, ele rotulou essas coisas como “refugo”, literalmente, “esterco”.

Até hoje, a maioria das pessoas que falam sobre adoração geralmente têm em mente as coisas externas – a liturgia, as cerimônias, a música, o ajoelhar-se e outros aspectos for- mais. Recentemente li o testemunho de um homem que abandonou o cristianismo evangélico e se uniu ao catolicismo romano. Uma das principais razões que ele apresentou para deixar o evangelicalismo foi que ele encontrou no catolicismo romano uma liturgia que “se parecia mais com adoração”. Quando ele explicou isso, tornou-se evidente que ele realmente estava dizendo que a Igreja Católica oferece mais instrumentos de rituais formalistas – acender velas, imagens, ajoelhar-se, rezar, benzer e outras coisas assim. Ele equiparou essas coisas à adoração.

Mas estas coisas nada significam em relação à adoração verdadeira, em espírito e em verdade. Na realidade, como invenções humanas – não prescrições bíblicas – correspondem exatamente ao tipo de artifícios carnais que Paulo chamou de “esterco”.

A história e a experiência nos mostram que é incrivelmente grande a tendência humana para acrescentar aparatos carnais à adoração prescrita por Deus. Israel fez isso no Antigo Testamento, culminando na religião dos fariseus. As religiões consistiam em nada mais do que rituais da carne. O fato de que tais cerimônias freqüentemente são belas e emocionantes não as transforma em adoração verdadeira. As Escrituras são claras em afirmar que Deus condena todos os acréscimos humanos àquilo que Ele ordenou de maneira explícita – “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15.9). Nós, que amamos a Palavra de Deus e cremos no princípio Sola Scriptura temos de nos acautelar diligentemente contra essa tendência.

A Adoração é Prioridade Crucial

Nosso Senhor disse a Marta, que estava aflita devido aos afazeres domésticos por receber muitos convidados: “Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa” (Lc 10.41-42).

A verdade principal é evidente. Maria, que se assentara aos pés de Jesus, em adoração, escolhera “a boa parte”, e esta não lhe seria tirada. A adoração de Maria tinha um significado eterno, enquanto toda a intensa atividade de Marta não significou absolutamente nada, além daquela tarde especial.

Nosso Senhor estava ensinando que a adoração é a atividade essencial que deve preceder todas as outras atividades da vida. Se isto é verdade em nossas vidas particulares, não deveríamos nós tributar maior importância à adoração no contexto da congregação dos crentes?

O mundo está cheio de religião falsa e superficial. Nós, que amamos a Cristo e cremos que sua Palavra é verdadeira, não ousemos moldar nossa adoração aos estilos e preferências de um mundo incrédulo. Pelo contrário, temos de reputar como nosso principal objetivo ser adoradores em espírito e em verdade. Devemos ser pessoas que adoram a Deus no Espírito, se gloriam em Cristo Jesus e não confiam na carne. Para fazer isso, temos de permitir que somente a Escritura – Sola Scriptura – regule nossa adoração.


Translation provided by Editora Fiel